A tese ganhará o centro das atenções mais uma vez, durante
congresso de nutricionistas esta semana em São Paulo. Especialista
português convidado está entre os que condenam o alimento

O vilão da vez entre os alimentos proscritos por muitos nutricionistas e médicos ortomoleculares, o leite de vaca estará mais uma vez na berlinda durante o Congresso Internacional de Nutrição Clínica Funcional, que começa quinta-feira em São Paulo. Desta vez, até um especialista estrangeiro virá ajudar a desmascarar aquele que um dia já foi considerado o alimento perfeito. Pedro Bastos, um dos mais renomados nutricionistas funcionais de Portugal, falará sobre “Efeitos do leite na individualidade bioquímica”.

- Não considero o leite de vaca e de outras espécies um alimento adequado ao ser humano – diz Pedro Bastos. – Após a amamentação, nenhum mamífero consome leite (e muito menos de outra espécie). Este padrão também foi seguido, durante 2,5 milhões de anos, pelos vários hominídeos (incluindo o homo sapiens) que habitaram a terra. Só após a revolução agrícola (há cerca de 10 mil anos), através da domesticação dos animais, é que a exploração e consumo de laticínios se tornou possível. O leite é, assim, um alimento relativamente recente na alimentação do ser humano, o que explica por que cerca de 70% da população adulta mundial apresenta intolerância à lactose (dificuldade/impossibilidade de digerir o açúcar do leite).

O nutricionista afirma que muitos estudos científicos relacionam o consumo elevado de leite de vaca e o surgimento de doenças inflamatórias como otite, dermatite, rinite, sinusite, bronquite asmática, amigdalite, gastrite, enterocolite, esofagite, celulite e tireoidite, além de obesidade, hipertensão, inchaços, aumento da resistência à insulina, fadiga e até mesmo hiperatividade, dislexia, ansiedade e depressão.

Por outro lado, segundo o nutricionista, até mesmo os bons efeitos atribuídos ao leite – como a proteção contra a osteoporose, por causa do cálcio – não são totalmente verdadeiros, já que o cálcio é apenas um dos nutrientes necessários para a prevenção da osteoporose:

- Se existir um desequilíbrio entre o cálcio e os outros nutrientes (por déficit de ingestão dos mesmos ou excesso de ingestão de cálcio), pode ocorrer desmineralização óssea. Um desses nutrientes é o magnésio, cuja deficiência (que pode ser causada por um consumo elevado de cálcio) está associada à menor densidade mineral óssea e à maior incidência de fraturas. Outro nutriente extremamente importante na manutenção da saúde óssea é a vitamina D – aponta.

Veja outras opiniões de Pedro Bastos:

Vital: A partir de que idade o senhor recomenda que se comece a retirar o leite e seus derivados da dieta?

Bastos: Até 1 ano de idade, a criança apenas deveria beber leite materno. E, a partir do momento em que abandona a amamentação, o ideal seria que não bebesse leite (quer seja de vaca, ovelha ou cabra). É certo que crianças que bebem leite bovino podem atingir maior estatura, mas, apesar desse fato ser valorizado na nossa sociedade, é importante que se saiba que isso pode aumentar o risco de desenvolver alguns tipos de câncer na vida adulta. Os motivos pelos quais se recomenda o leite são a sua riqueza em cálcio e em proteínas de alto valor biológico, mas existem várias outras (e melhores) fontes de proteína de alto valor biológico como peixe, carne e ovos, e outras fontes de cálcio como brócolis e couves, cujo consumo regular e elevado pode prevenir o desenvolvimento de diversas patologias, incluindo a osteoporose.

Vital: Como fazer escolhas sobre o que comer e o que não comer entre os laticínios? Há os que são mais e os que são menos nocivos?

Bastos: O iogurte tradicional (que não tem leite em pó adicionado) e alguns queijos (que têm muito pouca lactose) são, normalmente, bem tolerados (do ponto de vista gastrointestinal) por quem tem intolerância à lactose, mas podem causar todos os outros efeitos adversos que o leite pode causar.

Vital: Qual deveria ser a dose máxima diária tolerável de laticínios e leite?

Bastos: Walter Willett, da Harvard School of Public Health, recomenda (com base em extensos estudos epidemiológicos) que não se ingira mais que 1 copo de leite por dia. Esta é uma recomendação generalista, pois depende do indivíduo, pelo que não lhe posso dar uma resposta clara.

Vital: Todas as pessoas, indistintamente, terão intolerância à lactose?

Bastos: Não. Cerca de 30% da população mundial tolera totalmente a lactose e, dos restantes, 70% que não produzem lactase (enzima que “digere” a lactose) na idade adulta (hipolactasia), muitos conseguem tolerar até 12 gramas de lactose por dia (1 copo de leite), sem experimentar quaisquer sintomas.

Vital: E os malefícios dos laticínios atingirão somente as que têm intolerância ou a todas as pessoas que consumirem?

Bastos: Esse é um tema controverso, e os estudos que tentaram ligar a hipolactasia a alguns tipos de câncer não são claros a esse respeito. De qualquer modo, existem vários efeitos adversos que são independentes da hipolactasia, pelo que uma pessoa que bebe muito leite e o tolera muito bem não está livre de poder vir a sofrer de alguma patologia derivada desse consumo.

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